Thursday, May 14, 2009

Fado de repetição

Nada é tudo que faço,
Porque o que faço,
Esse já é repetido.

Tortura é este meu cansaço
Porque em cada gesto amordaço
Aquilo que já é vivido.

Eterna repetição
Vive este meu coração
Por sentir o já sentido.
Fado louco e perdido
Por pensar no que faço
O eternamente repetido.

Wednesday, March 04, 2009

Fica

Fica antes de partir
Para que a lembrança
Não se esgote
No salivar dos pensamentos.
Fica para se adocicar o adeus.

Wednesday, December 03, 2008

Um fado qualquer

Acabamo-nos ontem num amor cego

E, em lugar algum,

Este meu coração seco

Baterá novamente.

Leve morte no lentamente,

No acabar da insónia

E no despertar do sono

De um fado qualquer.


Gritamo-nos na surdez

Do escuro num último folgo

E num chorar de cansaço

Disse-te adeus.

Saturday, August 16, 2008

Alucinação

Amar-te é ser-se teu
No limiar da madrugada.
Meu amor, ter-te é doer-me
Por dentro e no haver,
Porque fria se escalda a paixão
No medo de te perder.

Amar-te é embriagar-me
Para a dor não sentir.
E se a sinto é pura aparência,
Simples alucinação na loucura
Pois ouço-nos a nós,
Só a nós, meu amor.

Sunday, June 01, 2008

Sem dom da palavra

Cada palavra se diz
Em nada e em tudo.
Cada gesto se fala calado
Quieto e mudo.

Eu digo-te cantando-te
Em cada verso surdo,
Em cada esquina de corpo,
Em cada grito a menos
Quando a boca me tapas.

Ouço-te e calo-me
Porque de ti vem a paixão,
Mulher e Musa de samba,
Triste de solidão.

Sunday, December 02, 2007


A palavra amor

Cospe-se dentro do corpo por se achar gigante a palavra amor. E surda me diz a palavra engano a cada vez que sonho para me matar de seguida. Limpa-se a alma dentro de ti pelos nós da garganta que desatei em cada beijo. E calado me sopra ao ouvido o verso de carne sobre carne, amor sob amor. Suja-se a pele em nós por se amassar cada grito dentro da boca em asfixia. E morto me dizem que afinal a vida acabou sem começar pelo medo de existir. Inspira-se o pó para dentro de mim por ti e inertes em cansaço nascemos para gastar o que não sabemos ter. E mudo me diz o poeta pela palavra que o amor é por ti e sem ti. Somente porque sim.

Sunday, August 26, 2007

Chove pesadamente

Chove-me o pensar no sentimento,
Chove-me e dói por pesar
No sentir bem devagar.
Chove pesadamente
Por pensar que sente
Sem nada mostrar.
Chove-me sem molhar sequer.
Sinto, já sem sentir,
Que não sei o que quero dizer.
As palavras tropeçam
E devagar deixo-me desfalecer.