Tuesday, May 26, 2015

Vivemos num poço sem fundo,
Numa pátria apátrida e sem lei,
Onde quem se come é moribundo
E somente pode comer o rei.

Camões falecido, rosto de nada,
Dás voltas no teu tumulo,
No país dos proxenetas capitais,
Onde mandam vender os já mudos.

Friday, June 13, 2014

Arrepia quando sem um tu
Não pode haver um eu,
O pronome pessoal passa então
A perder a sua individualidade
Como se a carne ganha-se espinhas,
Como se as putas ganhassem castidade,
Como se os pântanos ganhassem terras,
E a terra áspera no céu nascesse,
Como se no teu funeral fosse eu que morresse!

Assim como apenas existe
O olhar de cobiça junto do olhar terno,
Existe o meu demónio junto do teu anjo,
Uma barraca de lata junto a um castelo
E ainda existe, a ideia que persiste,
Uma força invencível na unidade como um sismo,
Galopando forte e vil na fronteira,
Sempre correndo no linear do abismo,
Onde caem pedaços de corpos mas de alma inteira!

Wednesday, May 21, 2014


Sede

A minha sede não é somente de não,
É de sensação exclusiva e ser profundo,
Erguer-me por dentro de um buraco sem fundo
E dizer-me gritando, mais, mais e mais.

Ser-me imaterial e viver,
Esculpindo caprichosamente todo o sentimento,
Decifrar o núcleo de cada sensação,
Embriagar-me porque sim ou porque não!

Lavra-me a multidão as terras,
Fazem-me a cama,
O ser e o não ser,
E quando dou por mim já outros me fizeram.

E fugindo nego-me
E canto sem paixão,
Mas no vosso leito,
Murcho e sem tesão,
Adormeço, sou da escuridão.

Quero ser eu,
Inventar-me e ser autêntico,
Aquele com mais aquele,
Meu e o teu sem ser teu,
Eu sem ser meu,
Mas quando abro os olhos,
Ganzado sem drogas,
O vento sopra e tudo já foi. 

Monday, February 10, 2014


No dia

No dia em que te matares,
Estica os teus lençóis,
Lava-te no teu perfume
E põe o teu melhor colar,
Ao som do rádio de estrume.

Coloca a roupa a secar ao sol,
Entre as moscas e a neblina matinal,
Nesse dia em que te matares.

Leva o miúdo ao infantário,
Esse, o que nos inicia no social,
Por entre buzinadelas de gente,
E sinais nunca dantes fechados,
Beija-o no stress das horas vagarosamente.

E no dia em que te matares,
Depois de te lavares,
Podes-te sempre lembrar
Que no outro dia jamais te vais levantar.

Tuesday, November 26, 2013


A mãe
 
Significa que me dói a mãe,
O ventre assassinado em que nasci,
A poeira ardente do que vivi.
Onde e quando ingreme e torta
A loucura, loucamente, bate à porta.

Monday, April 29, 2013

Ergueu-se em quatro paredes de plástico,
Carregou-se em quatro cruzes de pântanos,
Tropeçou em quatro linhas de relâmpagos,
Derretendo as pernas causticas.

Fechou-se em três pares de guilhotinas,
Caiu-se em três lâminas de avenidas,
Voou em três sentidos dispersos,
Chamando, estrangulado, por mães divinas.

Sentou-se em duas pedras no aproximar da morte,
Gritou-se duas vezes em pai, irmão e amor,
Chamou em dois versos de sorte,
O nascer e o morrer sem dor.

Caminhou-se em uma direcção,
Ir-se sem retorno e na confusão,
Sussurrou mãe, mãe, mãe
E lá, não estava mais que ninguém. 

Tuesday, January 08, 2013


Horta dos Incêndios

Senhor Poeta, tome a benção
Na horta dos incêndios,
Desçamos ao calor dos infernos
E, de repente, na poesia possamos
Queimar toda e qualquer emoção.
Nela aplicar todas as catástrofes,
Todas as bombas nucleares do coração,
E nela respirar, soltando um não.

Olhe olhe, senhor poeta,
Desçamos cúmplices aos hospicios
E na loucura, juntos e em linha recta,
Rasguemos, depois de nos amarrarmos,
toda a podridão.


Saturday, September 08, 2012



 Fundo Ateu


No teu fundo ateu,
Sem pátria nem Deus,
Lembra-me o bolso vazio
No cifrão do teu coração cheio.

No teu fundo ateu,
Onde não há sonho vão,
Lembra-me o pesadelo são
De putas e vinho com pão.

No teu fundo ateu,
Sem Olimpos nem Carnavais,
Lembra-me a festa crua
Naquela nudez que é só tua.

Justiça, educação e saúde
Dás de forma gratuita e pagã
Nas formas do teu corpo,
Ora de linho, ora de lã.

Sunday, August 19, 2012



Aflição

Aflito me foge o grito
Nesta ansiedade não sei de quê.
Gritando em silêncio fito
Esta aflição aflita do porquê.

Morrer era melhor solução
Para matar a tristeza que dói
Mas triste e caído persisto,
Solenemente, na cruz que me mói.

Friday, June 01, 2012


Foi

Foi neste isolamento que me fecho,
Sentado no escuro de mãos no tecto,
Aspirando sonho e tesão de mais,
Fugindo de ti quando estás perto.

Foi crescendo mingando em mim
Que se destruiu a boca na palavra,
O significado do fim na vida,
O inicio do amor de nada.

Sunday, April 08, 2012

Repetido

É este nada
Que absorve
E transpira em mim
O assobio do fim do teu corpo,
A melancolia do ser.

É este nada
Que mata
E faz renascer
A embriaguez da vida,
O cansaço vital para parar.

Tuesday, February 21, 2012


Comemos sem horas, com relógios, quase que propositadamente para o atraso. Chama-me pelo nome para jantar, pondo os pratos ainda lavados para detalharmos os pormenores deste atraso, do sabor a café na ponta da língua. Cigarros, esses, contamos por entre os dedos e apagamos os ponteiros nas suas pontas. Migalhas foram e sobraram do vento que passou. Na parede estás tu e eu na cama, quando acabaram as cinzas e as mortalhas. Fotografias quase rasgadas. Apagamos a luz e o tempo começa a contar.