Monday, April 29, 2013

Ergueu-se em quatro paredes de plástico,
Carregou-se em quatro cruzes de pântanos,
Tropeçou em quatro linhas de relâmpagos,
Derretendo as pernas causticas.

Fechou-se em três pares de guilhotinas,
Caiu-se em três lâminas de avenidas,
Voou em três sentidos dispersos,
Chamando, estrangulado, por mães divinas.

Sentou-se em duas pedras no aproximar da morte,
Gritou-se duas vezes em pai, irmão e amor,
Chamou em dois versos de sorte,
O nascer e o morrer sem dor.

Caminhou-se em uma direcção,
Ir-se sem retorno e na confusão,
Sussurrou mãe, mãe, mãe
E lá, não estava mais que ninguém. 

Tuesday, January 08, 2013


Horta dos Incêndios

Senhor Poeta, tome a benção
Na horta dos incêndios,
Desçamos ao calor dos infernos
E, de repente, na poesia possamos
Queimar toda e qualquer emoção.
Nela aplicar todas as catástrofes,
Todas as bombas nucleares do coração,
E nela respirar, soltando um não.

Olhe olhe, senhor poeta,
Desçamos cúmplices aos hospicios
E na loucura, juntos e em linha recta,
Rasguemos, depois de nos amarrarmos,
toda a podridão.


Saturday, September 08, 2012



 Fundo Ateu


No teu fundo ateu,
Sem pátria nem Deus,
Lembra-me o bolso vazio
No cifrão do teu coração cheio.

No teu fundo ateu,
Onde não há sonho vão,
Lembra-me o pesadelo são
De putas e vinho com pão.

No teu fundo ateu,
Sem Olimpos nem Carnavais,
Lembra-me a festa crua
Naquela nudez que é só tua.

Justiça, educação e saúde
Dás de forma gratuita e pagã
Nas formas do teu corpo,
Ora de linho, ora de lã.

Sunday, August 19, 2012



Aflição

Aflito me foge o grito
Nesta ansiedade não sei de quê.
Gritando em silêncio fito
Esta aflição aflita do porquê.

Morrer era melhor solução
Para matar a tristeza que dói
Mas triste e caído persisto,
Solenemente, na cruz que me mói.

Friday, June 01, 2012


Foi

Foi neste isolamento que me fecho,
Sentado no escuro de mãos no tecto,
Aspirando sonho e tesão de mais,
Fugindo de ti quando estás perto.

Foi crescendo mingando em mim
Que se destruiu a boca na palavra,
O significado do fim na vida,
O inicio do amor de nada.

Sunday, April 08, 2012

Repetido

É este nada
Que absorve
E transpira em mim
O assobio do fim do teu corpo,
A melancolia do ser.

É este nada
Que mata
E faz renascer
A embriaguez da vida,
O cansaço vital para parar.

Tuesday, February 21, 2012


Comemos sem horas, com relógios, quase que propositadamente para o atraso. Chama-me pelo nome para jantar, pondo os pratos ainda lavados para detalharmos os pormenores deste atraso, do sabor a café na ponta da língua. Cigarros, esses, contamos por entre os dedos e apagamos os ponteiros nas suas pontas. Migalhas foram e sobraram do vento que passou. Na parede estás tu e eu na cama, quando acabaram as cinzas e as mortalhas. Fotografias quase rasgadas. Apagamos a luz e o tempo começa a contar.

Saturday, December 24, 2011

Apega-te

Apega-te, sinto que vou rachar.
Aproveita estes "senãos" discretos,
Pois o que dura por momentos
Dura para sempre se se souber cuidar.

Descola-te do aparentemente gasto,
Do pé atrás e do medo de amar,
Já que quem não sofre e dá,
Cai ao precipício rapidamente devagar.

Saturday, November 05, 2011

Brinco

À noite, por longe
É no brinco que me penduro,
Na poesia do lençol e da boca,
No corpo que na alma seguro.

É na manhã,
No resto de cansaço que dura,
Que ele aparece
Nascido do nada e sem censura.

São dois homens, duas mulheres
Ou coisa alguma.
São sem o saberem,
Cristos ou Diabos à mistura.

Tuesday, July 05, 2011

Escrever

Escrever é um verbo que não existe,
É falar fingindo ser outro e de outro,
Mandar calar o sentimento que persiste,
O falso verdadeiro que não se sabe qual é.

Wednesday, February 09, 2011

Bebedeira de Ser Ninguém

Viver é doer e porque é preciso anestesiar, vamos hoje afogar a dança em álcool, vamos hoje sonhar com o impossível. Os corpos sãos e as mentes doentes são o desenho do dedo no escuro, são a forma explícita de Deus ateu a matar crescendo em nós. Ele. O criador que destruiu. Vamos então hoje lançar a pista até amordaçar os pés ao chão do céu, por entre esta bebedeira surda de ser ninguém.

Fotografia: David Galdino

Saturday, January 29, 2011

Fica, meu bem querer, para que durmas na ressaca de me deixar.

Friday, November 05, 2010

Quando

Quando cresceres irás cair, ainda quando gatinhares por entre pernas. O chão será o teu trapézio e a gravidade implacável para com as asas pequenas. Quando cresceres deixarás de ser o centro passando para os bordos, para tudo aquilo que se exclui de nós próprios e dos outros. O mundo pesa chumbo pelo avesso dos pés para quem voa alto. Nunca cresças, nunca te doas, nem esfoles os teus joelhos em vão.


Fotografia: José Torres

Tuesday, April 27, 2010


Pega o meu peso morto
Que chega somente pela manhã
E anoitece-me de beijos,
Esses traduzidos em nada.

Ai! O álcool da tua boca
Que me embebeda longe
E bem perto do teu corpo,
Esse letrado de suor.

Joga-me e roga-me
Na orelha pendurada na língua,
No teu bizarro odor,
Esse que tapa-me o coração.

(Fotografia - Ana Hierro)

Friday, February 26, 2010

Nascimento

Nasceste de novo para mim,
Já de nada nos faziamos,
Já de fim me construía
Por entre chamas de pó.

E de repente,
Não mais que de repente,
Tornou-se o passado em presente
E de nada nos viviamos.

Nasceste do nada
Para nos matarmos novamente,
Para que a essência se evaporasse,
Já apagada de tinta entornada.

Foi-se ficando devagar,
Calando-se a sede,
Voando-se pelo mar
Porque és o sonho que dói
E o limite do imaginário em mim.


(Fotografia - Luís&João Centeno)

Sunday, February 14, 2010

Adeus Avô

Disse-me o velho que vivia só na morte, que se sepultava em cada lembrança e em cada momento. A sua fatal doença era a vida e todo o tempo roubado que nunca chegou a ter. Matava-se no fumo do caminho, vendo sempre o seu fim desde cedo. A palavra mais sentida era o adeus e, por isso, a mais pesada de se dizer em todas as bocas. Mordia os lábios para o silêncio agarrar. Era um grito calado pela dor das horas passadas, pelo frio esquecimento de viver e de se existir sobrevivendo. Enterrava-se em pensamento e em corpo porque leve era a solidão. Era uma questão de talento, de fuga ao quotidiano, ao gelado calor de um aperto de mão. Disse-me o velho enquanto nascia em cada ruga, em cada sua pequena morte.


(fotografia - Tadeu Vilani)

Thursday, May 14, 2009

Fado de repetição

Nada é tudo que faço,
Porque o que faço,
Esse já é repetido.

Tortura é este meu cansaço
Porque em cada gesto amordaço
Aquilo que já é vivido.

Eterna repetição
Vive este meu coração
Por sentir o já sentido.
Fado louco e perdido
Por pensar no que faço
O eternamente repetido.

Wednesday, March 04, 2009

Fica

Fica antes de partir
Para que a lembrança
Não se esgote
No salivar dos pensamentos.
Fica para se adocicar o adeus.

Wednesday, December 03, 2008

Um fado qualquer

Acabamo-nos ontem num amor cego

E, em lugar algum,

Este meu coração seco

Baterá novamente.

Leve morte no lentamente,

No acabar da insónia

E no despertar do sono

De um fado qualquer.


Gritamo-nos na surdez

Do escuro num último folgo

E num chorar de cansaço

Disse-te adeus.