Friday, March 31, 2006


Aqui, longe de tudo

Longe de tudo,
De quase tudo, meu bem,
Disse-te tudo, porém.
Disse tudo não dizendo nada
Numa só palavra.
Disse-te mudo,
Quase surdo
Sem saber o que ouvir
Para não sofrer,

Aqui, longe de tudo.

Saturday, March 11, 2006

Terapia da alma

E a música entranhasse pelos meus poros assassinando todo o mau pensamento em mim... E a música possui o meu corpo em descoordenados movimentos enquanto me esqueço de ti, minha vida. E faz com que me mate alegremente de todo o mundo excepto de mim mesmo cantando à liberdade interior. E a música dita as minhas ordens para ti e para mim, anestesiando o meu ser de toda e qualquer dor de crescer... E faz com que abra as asas e salte pela janela sem mesmo a sequer ter aberto, enquanto voo por algures dentro de mim. Ah!... E é esta música que me faz viver e acreditar no impossível mesmo quando tudo parece voltar para trás no tempo e no espaço e o ontem repete-se sempre no amanhã. E é ela que remete a queda para o esquecimento dando forças e vontade para me erguer e correr em direcção ao sonho, ao sonho de ti minha vida. E é a mesma música que me faz chorar, às vezes de tanto rir, que me põe assim, esquecido de mim e de tudo que pesa na alma... Ah! E sabe tão bem ouvir e sentir, a ti, a mim, ao sonho, a ti música, minha vida.

Sunday, February 19, 2006


Esquina da razão

Encontro-me na esquina da razão
E digo-me adeus.
Empurro-me para a escuridão
De cada fundo do ser
Para me esquecer da emoção
E da vontade de viver
Na realidade
Da monstruosidade de continuar.

Digo-me de mim num fingir
Em que não existo para ninguém
E somente para alguém
Que vive sem existir.

Espero-me na rua do pensamento
Do recalcado sentimento,
Numa avenida qualquer do meu corpo

Onde solitariamente só passo eu.

Monday, February 13, 2006

Encontro marcado

Maria esperava ansiosamente pela sua chegada enquanto olhava a chuva lá fora. Tinha planeado tudo ao pormenor para nada correr mal, cada detalhe, cada pequeno gesto, cada sorriso de potencial alegria. Apenas queria ser feliz, apenas isso e mais nada. Estava cansada de tanto sonho vão, sem sentido nem direcção, e de tantas quedas pelo caminho.
Esperava sentada no restaurante marcado por ele, aquele alguém que ela idealizava, mesmo sem conhecer na verdade, pois de si pouco lhe falava. O lugar era apetecivelmente aconchegante, de ar familiar, de uma riqueza interior surpreendente, pronta a embalar em si corpos solitários embebidos no vazio. Maria vestia alegremente o vestido preto, que passara horas antes cuidadosamente a ferro, e que ele lhe oferecera, juntamente com um doce beijo na face, no último encontro.
O tempo escorria pelas paredes e ele ainda não tinha chegado... parecia estar atrasado. Talvez, pensou Maria, devido ao temporal que fazia lá fora. Porém lá dentro tudo era tão melhor, tudo tão único e ideal para a realização do sonho e do crescimento de novas asas, novos horizontes despromovidos de obstáculos, novos céus sem limites.

- Hoje vou voar bem alto e desta vez não será para cair – murmurou Maria sorrindo para dentro mordendo os lábios.

Os minutos passavam lentamente e nada acontecia, ele teimava em não chegar. Passaram agora já duas horas, que mais pareciam uma eternidade contida no tempo, e absolutamente nada, nem um sinal, nem uma chamada para o telemóvel. Maria percebeu aí, naquele local de fantasia, que afinal tinha caído e bem de alto, aprendeu que para a próxima teria que voar minuciosamente bem mas sozinha.
Levantou-se serenamente e saiu. Ainda hoje ela desconhece a verdadeira pessoa que a enganou, suspeitando que, simplesmente, talvez se tive-se enganado a si própria.

Wednesday, January 25, 2006


Voar sentado

Sentado te espero
Porque em pé iria-me cansar.
Não sei bem o que quero
Mas de pé é que não posso continuar.

Sento-me para voar
E descansar
Em pensamento.
Esquecer-me da dor de fingimento,
Dor de tanto sentir em falsidade,
Se falsidade se pode chamar à realidade.

Vou voar sentado,
De pés no chão.
Dar sede à minha dor,
Matar de fome a minha solidão.

Monday, January 09, 2006


Dói-me a cabeça

Dói-me a cabeça.
Dói-me estranhamente sem doer,
Sem nada em mim que se esqueça
Com tudo para lembrar.

Dói-me sem dor
Sem frio e sem calor.
Apenas me dói por lá estar
Mesmo não sendo esse o seu lugar.

Mas dói-me a cabeça sem beber,
Sem mesmo sequer doer.
Dói-me apenas sem explicação.
Dói-me a cabeça perto do coração.

Saturday, December 31, 2005

Máscara de pessoa

Sou contemporâneo de Pessoa na sua plenitude mais subjectiva, uma vez que a minha existência ultrapassa o para lá do linear, onde o que se apresenta são simples interrogações à vida e o seu porquê. Penso nas coisas que são coisas como sendo coisas para além das coisas, como se sendo o que são não me basta-se e tenho a tendência de lhes atribuir simbolismo, conotação pessoal e singular. Uma música não é assim simplesmente uma música, uma junção de acordes, de notas conectadas a vozes e a instrumentos, é, para além disso, um momento, uma lembrança, um lugar, uma pessoa. E se pessoa na Grécia antiga queria dizer máscara, então sou mesmo contemporâneo de Pessoa, embora não saiba quantas faces tenho e quantos papeis desempenho. Sou eu e os meus múltiplos de eu. Sei apenas que me apresento no palco da confusão, mas no entanto, no palco do já claramente visto por muitos antes de mim. Vivo na vontade eterna de querer sentir tudo e de todas as maneiras imaginárias. Talvez assim preencha tanto vazio cá dentro, um vazio que vem do fundo, mas somente só amanhã terei tempo de o preencher cheio de tudo, um tudo que quando chegar a hora será tanto nada para mim. E é este cansaço sem fim que sinto, que não sei de onde vem que me impede de interpretar e valorizar devidamente as coisas, essas mesmas que para mim deixam de ser coisas simples para ser coisas sofridas, sem nada, coisas de mim sem valor para ninguém e somente minhas. Mas sim, como dizes tu grande poeta, apenas depois de amanhã... Sim, ou então depois de depois de amanhã. Aí encontrarei o tudo, o infinito e a resposta para aquilo que agora não sei. Mas porque já sei que não irei ficar satisfeito? Maldita sede de voar mais alto! Ah, sim, sou contemporâneo de Pessoa.

Para um poema - (excerto do poema "Adiamento" de Álvaro de Campos, interpretado pelos Coldfinger)

(...)

Depois de amanhã, sim, depois de amanhã
Levarei amanhã a pensar
Em depois de amanhã
E assim será possível,
Mas hoje não hoje nada, hoje não posso...

(...)

Thursday, December 22, 2005

Para lá do fumo

Fumo calmamente
Enquanto abraço o meu corpo na ausência do teu.
Já nada há.
Apenas eu e eu.
Já nada é meu,
E dói, dói, dói,
Tudo me foi.

Escrevo sem parar para te esquecer
Mas não,
Tudo insiste em doer.
Eu mais tu,
Tu mais eu
Desapareceu por entre este cigarro.
Já nada há,
Já nada em mim agarro.
Tudo está já para lá,
Para lá...
Onde desconheço o que há.

Saturday, December 10, 2005

Quando dói sem razão porque afinal não a sei, uma vez que nada me foi demonstrado, culpo-me a mim e à minha ingenuidade tão frágil por tal. Danço assim, solitariamente, num palco sem chão e voo, mesmo sem ter asas para voar, em direcção a um céu que não existe. Talvez por isso eu caia tantas vezes, por muito que me chamem à atenção e me digam “Tem cuidado!”. Porém, continuo por aí a cair e a levantar-me, ora com ajuda ora sem, convicto que a mim me pertenço, andando ao sabor da maré, não sabendo, no entanto, em que mar navego. Se sei viver ou não, não o sei dizer... Talvez sim, talvez não. Enquanto isso vou caindo e me levantando para aprender a saber ser.

A ti, senhor Palma, um muito obrigado pelas lições de vida.



Yogi Pijama – Jorge Palma

Buscando sem saber bem o quê
Perdido como quem não vê
Calado como quem não tem resposta para quem o chama
Desesperado, como quem por ter medo da desilusão não ama
Yogi Pijama
Se deixas apagar a chama, estás virado para o desastre
Como uma vela sem mastro
Ou um barco sem leme
Condenado a andar à toa conforme o vento lhe dá
Ao sabor da corrente
Yogi Pijama
Olha que andar ao deus dará nunca foi coisa boa
Yogi Pijama

Quebrando os seus ossos na rua
Fugindo da verdade nua
Como se abrir as portas ao Mundo fosse uma coisa obscena
Desencontrado como quem por ter medo da foz o rio condena
Yogi Pijama
Se deixas apagar a chama, estás virado para o desastre
Como uma vela sem mastro
Ou um barco sem leme
Condenado a andar à toa conforme o vento lhe dá
Ao sabor da corrente
Yogi Pijama
Olha que andar ao deus dará nunca foi coisa boa
Yogi Pijama

E já que nós nunca estamos sós
Vamos lá desatar os nós
E vamos lá chegar inteiros, onde quer que a vida nos leve
E enquanto é tempo
Deixa ver esse sorriso, que isso torna a pena mais leve
Yogi Pijama
Se deixas apagar a chama, estás virado para o desastre
Como uma vela sem mastro
Ou um barco sem leme
Condenado a andar à toa conforme o vento lhe dá
Ao sabor da corrente
Yogi Pijama
Olha que andar ao deus dará nunca foi coisa boa
Yogi Pijama

Monday, November 28, 2005


Sem porquê nem como

Porque se te amo sem explicação,
Sem saber porquê nem como,
É somente porque não calo o coração
Quando ele grita e salta desenfreadamente.

Assim te amo sem questões
E somente porque sim.
Sem ilusões, nem contradições,
Onde tudo e nada está em mim.

Sunday, November 13, 2005

O passado

O passado dói
Quando bom ele foi.
Agora o nada,
Agora o vazio.

Esquece o presente,
Mergulha nas memórias.
Elas te consolam,
Te embalam docemente.

Tuesday, November 01, 2005

A poesia arranha quando vai para além do concreto em nós, quando nos descobre naquilo que tanto escondemos de todos. Raspa e dói por vezes mais do que a própria força bruta, por isso mesmo se torna tão única, inesperada e bela. Descobre-me e corrompe-me para lá do imaginário, para lá, muito para lá de mim, para lá do tempo da própria vida. Ela ficará, eu não. Outros marcará com as suas palavras velhas, mas nunca gastas, escritas para a eternidade.

Nalgum lugar perdido - Mafalda Veiga

Olhar-te um pouco
Enquanto acaba a noite
Enquanto nenhum gesto te magoa
E o mundo fora aquilo que sonhares
Nesse lugar só teu

Olhar-te um pouco
Como se fosse sempre
Até ao fim do tempo, até amanhecer
E a luz deixar entrar o mundo inteiro
E o sonho se esconder

Nalgum lugar perdido
Vou procurar sempre por ti
Há sempre no escuro um brilho
Um luar
Nalgum lugar esquecido
Eu vou esperar sempre por ti

Enquanto dormes
Por um momento à noite
É um tempo ausente que te deixa demorar
Sem guerras nem batalhas para vencer
Nem dias para rasgar

Eu fico um pouco
Por dentro dos desejos
Por mil caminhos que são mastros e horizontes
Tão livres como estrelas sobre os mares
E atalhos pelos montes

Nalgum lugar perdido
Vou procurar sempre por ti
Há sempre no escuro um brilho
Um luar
Nalgum lugar esquecido
Eu vou esperar sempre por ti

Saturday, October 29, 2005


Sim, eu sei

Estou velho, pensei.
Já não sou quem me conheço,
A mim jamais me pertenço,
Mas a alguém que não sei.

Não sou o mesmo das fotografias,
O mesmo que navegava nos dias,
Em tudo mudei.
Em nada em mim me demorei e fiquei a saborear,
Nunca no relógio parei e pensei
Estou velho, sim, eu sei...
De mim para mim estou incompleto,
A meio da recta do fim,
Estou velho, sim, eu sei.



Saturday, October 15, 2005

Mais um

Após um dia, apenas mais um, sinto o cansaço já tão comum em mim. Descalço-me, sentindo o chão fresco, sentindo-me a mim no reflexo enevoado do espelho há muito rachado. “Que cara”, penso. Arrasto-me pelas divisões da casa como se não as conhecesse, mas olhando tudo com indiferença, nada me agrada, nada me cativa, tudo é tão, tão, tão... sim, igual a si mesmo. Nada apenas tenho e nada é tudo nestes dias transparentes e, que mesmo assim, é tão pesado de se carregar. “Estou cansado, sinto-me velho” digo não obtendo resposta nem de mim para mim. Hoje tudo estranho mas nada é tão novo como fora dantes, onde o infinito e o sonho são uma só realidade, uma só meta a atingir. “Para quê?”... penso-me racionalmente mais uma vez.
De tanto pensar já me perdi, já não sei onde estou nem quem sou. Sei apenas isso, agarrando-me a uma almofada qualquer como se ela fosse tua, pois das minhas odeio-as. Tento achar nela o teu perfume, o cheiro de outros tempos, contudo nada. No fim da tarde e sem ter fim, deito-me no chão, fecho os olhos e tento adormecer... Mas custa tanto, tanto. Sim, amanhã será melhor.

Saturday, October 01, 2005


Escrita de eco

Escrevo para mim,
Para auto-satisfação
Porque de mim só me falto eu.
Escrevo perto do meu fim,
Onde tudo é tudo e meu.

Sendo assim,
Não vou para longe de mim
Quando nada acontece na escrita
Porque sempre que escrevo,
Escrevo como quem grita

E o eco sempre fica.

Saturday, September 24, 2005

Multi-Eu
Num fim de tarde chuvoso, no café do jardim ao som de um jazz clássico, de perna cruzada, um homem de meia idade e de cachimbo na boca lia calmamente o seu jornal. Em cima da mesa de madeira adormecia a chávena de café e um cinzeiro repleto de pontas de cigarro, nervosamente fumados por o cliente anterior. As paredes do estabelecimento eram envidraçadas, provocando jogos com os corpos das pessoas, fazendo aquilo a que o homem chamava de duplicação e deformação do eu. Gostava de estar ali, pois era ali que se multiplicava e não sabia de si enquanto lia um simples jornal.

- Quantos sou eu e de quantas formas tenho eu? – pensava enquanto cuspia fumo.

Na verdade não sabia, pois a cada momento mudava, uma vez que toda e qualquer experiência vivida modificava o seu “eu” verdadeiro e autêntico. No entanto, muito estranhamente, gostava disso. Então ia sempre, depois do emprego, àquele discreto café de jardim, para constatar essa realidade através dos espelhos, para se realizar e observar as suas potenciais mudanças de cada dia.
Passado alguns minutos, apressadamente, o empregado aproximou-se para cobrar o café.

- Meu senhor, desculpe mas hoje vamos fechar mais cedo... Importa-se de pagar, por favor? – pediu delicadamente recolhendo a chávena de café.

O homem franziu a sobrancelha, riu-se ironicamente olhando para um espelho e respondeu:

- Peça ao meu eu do espelho do fundo para pagar. Hoje estou sem dinheiro.


Friday, September 16, 2005



Sentado aqui

Sentado aqui penso.
Penso no nada que sou
Por entre este infinito imenso.
Onde estive já não estou
E quem tive já não sei,
Embora um dia tudo saberei.
Não, não em breve,
Mas onde tudo será leve
Puro e branco como a neve,
Quando for eu o infinito em mim,
Quando morrer e nada tiver fim,
Pois obra feita deixarei,

Nem que seja na memória daqueles que marquei.

Wednesday, September 07, 2005


Sonho

- Já pensaste nas coisas fantásticas que vês lá de cima?
E não tens que necessariamente cair!
- Dá-me a mão então. Tenho medo.

- Se não correres o risco nunca afogarás esse sentimento. Por isso, prefiro esperar-te de braços abertos cá em baixo.

P.S : Texto meu e de Miguel Machado

Monday, August 29, 2005



Perfeito

Está feito.
Eu mereço-o
Tal como é, imperfeito.
Conheço-o.
Sim, conheço-o.
De mim o nada é eleito,
Contudo
E em tudo
O perfeito,
Mesmo sendo tão imperfeito.

Arranjo cada tijolo da casa cuidadosamente
Para ter em mim a perfeição,
A perfeição de mim e da minha mente,
Bem junto do imperfeito do coração.

Wednesday, August 24, 2005

Dia de trabalho

Maria acordou para mais um dia de trabalho ao som do despertador prateado. Na mesinha de cabeceira pousada, a revista de moda que lera antes de adormecer. Ao lado, na cama, jazia o espaço vazio que, ansiosamente, queria ela um dia preencher com o corpo de alguém. Os lençóis permaneciam amarrotados após mais uma noite de pesadelo, não havia tempo para sonhar, tinha que ir trabalhar. Levantou-se e deslizou para a casa de banho, pintada a cor de rosa claro, bem a seu gosto. Abriu as torneiras da banheira e olhou-se agradavelmente ao espelho enquanto se despia.
- Hoje sinto-me bonita. Hoje sinto-me eu - murmurou sorrindo para o seu reflexo, passando as mãos pelas suas próprias ancas.
Vagarosamente entrou na banheira e acendeu um cigarro. Não queria saber de horários nem obrigações a cumprir, pois hoje sentia-se bonita e era raro sentir-se assim, tinha que aproveitar. Brincou com a espuma rindo, fechou os olhos e sonhou como sonhara nos seus tempos de criança, lembrando-se do tempo em que a sua avó lhe dava banho com tanto carinho. Agora não tinha ninguém, só a ela. Mas hoje estava feliz, era o que importava. Não, não iria trabalhar.