Friday, February 16, 2007

Passo a passo

Depois da música de fundo, ouviu-se os saltos altos. Aqueles que se sente paixão pelo passo, pelo andar subtil de assassina, pelo homicídio de cada gesto simples do andar. Aqueles que suportam o peso do corpo onde o frio se transforma rapidamente em calor. Aqueles que abafavam a tonalidade do ar, a melodia que havia em cada ouvido e em cada ruído dito por ela. Medo diziam os pés. Calcavam veneno. A bala atingiu o peito do desconhecido mas a música, essa ainda se escuta dia após dia. Meu amor, minha música.

Saturday, December 23, 2006

Do nosso próprio frio

Meu amor,
Soubemo-nos ser,
Nascer, viver
Para depois afundar
Tudo no mar.
Fizemo-nos nus,
Transparentes,
Para depois morrermos
Do nosso próprio frio.

Não sabemos continuar,
Não sabemos deixar de deixar.
Nascemos,
Vivemos
E vamo-nos matando,
Matando
Bem devagar.

Tuesday, October 17, 2006

Para ti

Amor mais amado,
Porque congelaste o tempo,
Porque fizeste o espaço rodar,
Quero-te na imensidão do corpo,
O corpo já frio que treme pelo teu calor.

Meu amor que aleija
Sem beijar
E que morde com o toque
Que mata com vida.

Tuesday, August 29, 2006

Ir apenas

Ir para fora dentro de mim,
Estar longe aquando o perto,
Ser o centro da curva,
Acelerar na recta do fim.

Ser-se frágil aquando forte,
Ser-se forte aquando inútil,
Para sempre e para nada

Na madrugada da vida.

Saturday, August 05, 2006

Horas paradas

Sempre que o relógio me cativar me lembrarei de ti, meu amor, em todos os momentos em que contamos os minutos para a morte. Seremos sempre os amantes finitos pelo tempo com toda a dor pelas horas, sempre as horas. Sempre que o cronómetro parar antes da meta, irei correr ferozmente para ganhar e chegar em primeiro, pois sem tempo os corpos se conservam e a decomposição afectará apenas o interior de nós num destruir abstracto, de aparência apenas... Os ponteiros entre nós sempre se congelaram porque o tempo, o nosso tempo, era maior... Enganamo-nos tanto, mentimo-nos perante o mundo, perante as horas, perante o relógio que teima em não parar. Enganamos a morte, ou melhor fingimos que a enganamos, mas não, quem perdeu foi o corpo só que éramos.

Saturday, July 15, 2006

Sempre ausente

Sempre ausente de tempo
Sento-me a olhar para o nada.
Acendo um cigarro,
Abraço-me
E finjo que tudo corre bem.

O fumo diz-me de ti
E de nós no espaço,
Na distância do corpo.

...Agarro-me
E finjo que tudo corre bem.

Fotografia: by pukah


Monday, June 12, 2006

Curvas do querer

Deixar-me ir sem corpo de carne solta nos dentes, na pele. Deixar-me ir quebrando ossos com fome de cão. Ir apenas. Com fome. Querer mais sem saber o quê, se eu, se tu. Se nós. Esvoaçar-me de braços ao vento e pensar que mais me falta e mais morderei de unhas cerradas. Querer por mais. Mais. Mais eu. Quando e onde não sei, apenas que me levar a mim para longe. Para mim de volta. Sim, de volta para mim. Para longe. Para a eternidade. Canto-te vida na boca áspera de tanto gritar por ti, sem ter dedos que te agarre, te prenda ao colo, ao útero virgem do coração. Deixar-me ir. Deixar-me ir. Deixar-me ir para ti. Para mim. Simplesmente o querer, o querer o desejo de mais.

Sunday, June 04, 2006

Sempre

Entre um cigarro e outro
Penso.
Entre um copo e outro
Penso.
Entre o tudo e o nada
Penso.

Penso sempre
Mesmo sem o querer.
Estranha forma de viver
Vivendo aquilo que não se quer...

Thursday, May 18, 2006


Traficante de amor

Sabes que ainda vives em mim e que todas as palavras que te disse ao ouvido bem baixinho não se esgotaram. Sabes que ainda ardo ao pensar em ti assim como ardeu o meu corpo no teu em todas aquelas noites, tardes, manhãs. Sabes que sinto falta de todos aqueles pequenos silêncios vindos do nada e que tanto nos falavam e transcreviam para o espaço. Sabes que por mais que seja a distância a minha heroina ainda és tu e, feliz ou infelizmente, a ressaca torna-se cada vez maior. Preciso de ti, preciso de nova dose. Talvez te procure pelas ruas à espera que alguém me venda um pouco de ti.

Tuesday, April 18, 2006

Asas de Louco

Ser-se inteiramente louco é transportar em si a vontade da destruição de uma realidade que não a sua. É querer mais do que o eternamente possível e impossível, é ser-se mais e mais para além de si próprio, procurando pelo tempo um terreno inseguro mas seu. Caminhar pela loucura do para lá do real é caminhar rumo ao desconhecido buscando não uma morte finita, mas uma vida infinita que perdura além do apodrecer dos corpos... Ser-se simplesmente louco, ser-se simplesmente irreal dentro da própria realidade.

Friday, March 31, 2006


Aqui, longe de tudo

Longe de tudo,
De quase tudo, meu bem,
Disse-te tudo, porém.
Disse tudo não dizendo nada
Numa só palavra.
Disse-te mudo,
Quase surdo
Sem saber o que ouvir
Para não sofrer,

Aqui, longe de tudo.

Saturday, March 11, 2006

Terapia da alma

E a música entranhasse pelos meus poros assassinando todo o mau pensamento em mim... E a música possui o meu corpo em descoordenados movimentos enquanto me esqueço de ti, minha vida. E faz com que me mate alegremente de todo o mundo excepto de mim mesmo cantando à liberdade interior. E a música dita as minhas ordens para ti e para mim, anestesiando o meu ser de toda e qualquer dor de crescer... E faz com que abra as asas e salte pela janela sem mesmo a sequer ter aberto, enquanto voo por algures dentro de mim. Ah!... E é esta música que me faz viver e acreditar no impossível mesmo quando tudo parece voltar para trás no tempo e no espaço e o ontem repete-se sempre no amanhã. E é ela que remete a queda para o esquecimento dando forças e vontade para me erguer e correr em direcção ao sonho, ao sonho de ti minha vida. E é a mesma música que me faz chorar, às vezes de tanto rir, que me põe assim, esquecido de mim e de tudo que pesa na alma... Ah! E sabe tão bem ouvir e sentir, a ti, a mim, ao sonho, a ti música, minha vida.

Sunday, February 19, 2006


Esquina da razão

Encontro-me na esquina da razão
E digo-me adeus.
Empurro-me para a escuridão
De cada fundo do ser
Para me esquecer da emoção
E da vontade de viver
Na realidade
Da monstruosidade de continuar.

Digo-me de mim num fingir
Em que não existo para ninguém
E somente para alguém
Que vive sem existir.

Espero-me na rua do pensamento
Do recalcado sentimento,
Numa avenida qualquer do meu corpo

Onde solitariamente só passo eu.

Monday, February 13, 2006

Encontro marcado

Maria esperava ansiosamente pela sua chegada enquanto olhava a chuva lá fora. Tinha planeado tudo ao pormenor para nada correr mal, cada detalhe, cada pequeno gesto, cada sorriso de potencial alegria. Apenas queria ser feliz, apenas isso e mais nada. Estava cansada de tanto sonho vão, sem sentido nem direcção, e de tantas quedas pelo caminho.
Esperava sentada no restaurante marcado por ele, aquele alguém que ela idealizava, mesmo sem conhecer na verdade, pois de si pouco lhe falava. O lugar era apetecivelmente aconchegante, de ar familiar, de uma riqueza interior surpreendente, pronta a embalar em si corpos solitários embebidos no vazio. Maria vestia alegremente o vestido preto, que passara horas antes cuidadosamente a ferro, e que ele lhe oferecera, juntamente com um doce beijo na face, no último encontro.
O tempo escorria pelas paredes e ele ainda não tinha chegado... parecia estar atrasado. Talvez, pensou Maria, devido ao temporal que fazia lá fora. Porém lá dentro tudo era tão melhor, tudo tão único e ideal para a realização do sonho e do crescimento de novas asas, novos horizontes despromovidos de obstáculos, novos céus sem limites.

- Hoje vou voar bem alto e desta vez não será para cair – murmurou Maria sorrindo para dentro mordendo os lábios.

Os minutos passavam lentamente e nada acontecia, ele teimava em não chegar. Passaram agora já duas horas, que mais pareciam uma eternidade contida no tempo, e absolutamente nada, nem um sinal, nem uma chamada para o telemóvel. Maria percebeu aí, naquele local de fantasia, que afinal tinha caído e bem de alto, aprendeu que para a próxima teria que voar minuciosamente bem mas sozinha.
Levantou-se serenamente e saiu. Ainda hoje ela desconhece a verdadeira pessoa que a enganou, suspeitando que, simplesmente, talvez se tive-se enganado a si própria.

Wednesday, January 25, 2006


Voar sentado

Sentado te espero
Porque em pé iria-me cansar.
Não sei bem o que quero
Mas de pé é que não posso continuar.

Sento-me para voar
E descansar
Em pensamento.
Esquecer-me da dor de fingimento,
Dor de tanto sentir em falsidade,
Se falsidade se pode chamar à realidade.

Vou voar sentado,
De pés no chão.
Dar sede à minha dor,
Matar de fome a minha solidão.

Monday, January 09, 2006


Dói-me a cabeça

Dói-me a cabeça.
Dói-me estranhamente sem doer,
Sem nada em mim que se esqueça
Com tudo para lembrar.

Dói-me sem dor
Sem frio e sem calor.
Apenas me dói por lá estar
Mesmo não sendo esse o seu lugar.

Mas dói-me a cabeça sem beber,
Sem mesmo sequer doer.
Dói-me apenas sem explicação.
Dói-me a cabeça perto do coração.

Saturday, December 31, 2005

Máscara de pessoa

Sou contemporâneo de Pessoa na sua plenitude mais subjectiva, uma vez que a minha existência ultrapassa o para lá do linear, onde o que se apresenta são simples interrogações à vida e o seu porquê. Penso nas coisas que são coisas como sendo coisas para além das coisas, como se sendo o que são não me basta-se e tenho a tendência de lhes atribuir simbolismo, conotação pessoal e singular. Uma música não é assim simplesmente uma música, uma junção de acordes, de notas conectadas a vozes e a instrumentos, é, para além disso, um momento, uma lembrança, um lugar, uma pessoa. E se pessoa na Grécia antiga queria dizer máscara, então sou mesmo contemporâneo de Pessoa, embora não saiba quantas faces tenho e quantos papeis desempenho. Sou eu e os meus múltiplos de eu. Sei apenas que me apresento no palco da confusão, mas no entanto, no palco do já claramente visto por muitos antes de mim. Vivo na vontade eterna de querer sentir tudo e de todas as maneiras imaginárias. Talvez assim preencha tanto vazio cá dentro, um vazio que vem do fundo, mas somente só amanhã terei tempo de o preencher cheio de tudo, um tudo que quando chegar a hora será tanto nada para mim. E é este cansaço sem fim que sinto, que não sei de onde vem que me impede de interpretar e valorizar devidamente as coisas, essas mesmas que para mim deixam de ser coisas simples para ser coisas sofridas, sem nada, coisas de mim sem valor para ninguém e somente minhas. Mas sim, como dizes tu grande poeta, apenas depois de amanhã... Sim, ou então depois de depois de amanhã. Aí encontrarei o tudo, o infinito e a resposta para aquilo que agora não sei. Mas porque já sei que não irei ficar satisfeito? Maldita sede de voar mais alto! Ah, sim, sou contemporâneo de Pessoa.

Para um poema - (excerto do poema "Adiamento" de Álvaro de Campos, interpretado pelos Coldfinger)

(...)

Depois de amanhã, sim, depois de amanhã
Levarei amanhã a pensar
Em depois de amanhã
E assim será possível,
Mas hoje não hoje nada, hoje não posso...

(...)

Thursday, December 22, 2005

Para lá do fumo

Fumo calmamente
Enquanto abraço o meu corpo na ausência do teu.
Já nada há.
Apenas eu e eu.
Já nada é meu,
E dói, dói, dói,
Tudo me foi.

Escrevo sem parar para te esquecer
Mas não,
Tudo insiste em doer.
Eu mais tu,
Tu mais eu
Desapareceu por entre este cigarro.
Já nada há,
Já nada em mim agarro.
Tudo está já para lá,
Para lá...
Onde desconheço o que há.

Saturday, December 10, 2005

Quando dói sem razão porque afinal não a sei, uma vez que nada me foi demonstrado, culpo-me a mim e à minha ingenuidade tão frágil por tal. Danço assim, solitariamente, num palco sem chão e voo, mesmo sem ter asas para voar, em direcção a um céu que não existe. Talvez por isso eu caia tantas vezes, por muito que me chamem à atenção e me digam “Tem cuidado!”. Porém, continuo por aí a cair e a levantar-me, ora com ajuda ora sem, convicto que a mim me pertenço, andando ao sabor da maré, não sabendo, no entanto, em que mar navego. Se sei viver ou não, não o sei dizer... Talvez sim, talvez não. Enquanto isso vou caindo e me levantando para aprender a saber ser.

A ti, senhor Palma, um muito obrigado pelas lições de vida.



Yogi Pijama – Jorge Palma

Buscando sem saber bem o quê
Perdido como quem não vê
Calado como quem não tem resposta para quem o chama
Desesperado, como quem por ter medo da desilusão não ama
Yogi Pijama
Se deixas apagar a chama, estás virado para o desastre
Como uma vela sem mastro
Ou um barco sem leme
Condenado a andar à toa conforme o vento lhe dá
Ao sabor da corrente
Yogi Pijama
Olha que andar ao deus dará nunca foi coisa boa
Yogi Pijama

Quebrando os seus ossos na rua
Fugindo da verdade nua
Como se abrir as portas ao Mundo fosse uma coisa obscena
Desencontrado como quem por ter medo da foz o rio condena
Yogi Pijama
Se deixas apagar a chama, estás virado para o desastre
Como uma vela sem mastro
Ou um barco sem leme
Condenado a andar à toa conforme o vento lhe dá
Ao sabor da corrente
Yogi Pijama
Olha que andar ao deus dará nunca foi coisa boa
Yogi Pijama

E já que nós nunca estamos sós
Vamos lá desatar os nós
E vamos lá chegar inteiros, onde quer que a vida nos leve
E enquanto é tempo
Deixa ver esse sorriso, que isso torna a pena mais leve
Yogi Pijama
Se deixas apagar a chama, estás virado para o desastre
Como uma vela sem mastro
Ou um barco sem leme
Condenado a andar à toa conforme o vento lhe dá
Ao sabor da corrente
Yogi Pijama
Olha que andar ao deus dará nunca foi coisa boa
Yogi Pijama

Monday, November 28, 2005


Sem porquê nem como

Porque se te amo sem explicação,
Sem saber porquê nem como,
É somente porque não calo o coração
Quando ele grita e salta desenfreadamente.

Assim te amo sem questões
E somente porque sim.
Sem ilusões, nem contradições,
Onde tudo e nada está em mim.